Cotidiano da Fronteira Brasil – Uruguay

Rodrigo de Assis Brasil Valentini (rodrigovalentini@furg.br) Graduando em Arqueologia pela FURG

 

O projeto Para-formal na Fronteira, coordenado pelos profs. Eduardo Rocha e Cláudia Brandão, proporcionaram, via edital, uma intensa experiência de poder vivenciar, conviver, estar durante seis dias, com vinte e duas pessoas em seis cidades fronteiriças do Rio Grande do Sul e Uruguai. Formávamos um grupo com formações diferentes e interesses múltiplos, cada qual buscando seu foco de estudo. Fui campesino, arquiteto, paisagista, artista, urbanista, historiador, antropólogo e pleiteando ser reconhecido como arqueólogo.

Com minhas andarilhagens pelo mundo aprendi a observar os/as que me rodeiam, sempre com o objetivo de entender como se relacionam e então tentar interagir, conviver com as varias tribos e evitando perpetuar pré-conceitos que os grupos possam ter entre si e reproduzi-los comigo. Observar o cotidiano dos viventes que me rodeiam foi tarefa aprendida ainda com meu avô, que desde cedo me ensinou que há mundos diferentes dentro de casa, que dirá fora dela e que estes deveriam ser respeitados. Mesmo que, para mim, parecessem absurdos. Hábitos solitários como o tomar mate (e não chimarrão) com pura folha, em grupo. Dependendo de onde ou que grupo se estivesse, a cuia seria compartilhada com todos/as presentes. Comer carne na semana santa, misturas de frutas com leite, ou entre si, sair do frio para o calor, não tomar banho de sanga depois do almoço, sestiar, etc. Hábitos estes que aceitá-los, divergi-los sempre o fiz de acordo com minha vontade no momento. Muitas vezes indo contra pela simples diversão de contrariar e observar as pessoas me olharem de modo estranho por estar fazendo algo contrario aos padrões daquele grupo.

Da infância até me encontrar estudando as culturas, expressas pela materialidade produzida, foi um longo caminho, mas me deu também tranquilidade para ter os sentidos atentos as mudanças ocorrendo no meu entorno. Visitar a fronteira (esta fronteira) é voltar a infância, o mate no chão, caçar com bodoque (menos o hornero, porque é filho de deus), tirar tento, guasquear, comprar fumo em rama no bolicho, estender a roupa na corda, banhos de sanga no calor (mesmo que agora as sangas estejam transpostas para os chafarizes das praças públicas), atear o pingo na árvore enquanto se faz a lida, mesmo que seja na praça maior. Hábitos cotidianos, ordinários demais, que a vida na cidade nos faz esquecer, mudar, mas que uma ida as fronteiras (não sendo viagem de compras), como passeio, nos proporciona o tempo necessário para voltar a olhar para os lados, escutar o som dos paisanos e perceber que o outro sou eu, eu sou a fronteira de mim mesmo. Assim como vou, eu volto.

Esse exercício fronteiriço com os companheiros de viagem, com os lugares que andamos, com os guias locais (os sinuelos), garimpados pelas localidades visitadas, com os objetos que vi, com o que ouvi, com o que senti, com os/as amigos/as que reencontrei (alguns vivos e outros já não mais aqui) reforçaram minha ideia de que entendo o Rio Grande como Norte do Uruguai e não como o sul do Brasil. Sim, falo português e um pouco de portunhol, mas entendo “castilhano” como um nativo. Tenho meus hábitos culturais intimamente conectados, muito mais, a essa gente fronteiriça, a essa pampa antropizada, do que a qualquer outro lugar.
Mostrando estas fronteiras, com estas imagens, pretendo propor um exercício identitário, que nos faça lembrar quem somos, de onde viemos, que nos faça solidarizar com estes paisanos. Mesmo que eu ainda tenha no imaginário a lembrança destes/as ligada ao personagem o qual aprendi a chamar de gaúcho, antes de me reconhecer como tal. Afinal, eu falo português, e eles/as castelhano.